“Cores e Valores – O filme”, por Rashid

rashid

Dê o play.

Do clima dos instrumentais ao conteúdo das letras, das interpretações até a sonoplastia que permeia as faixas. 12 anos após o último disco lançado, os Racionais MC’s nos apresentam um filme, só que pros ouvidos.

Diante a minha inexperiência com resenhas de discos (embora tenha o costume de lê-las), ao receber o convite e ter noção da imensa responsabilidade de resenhar o novo álbum dos Racionais MCs, o mais importante grupo de Rap brasileiro, resolvi mergulhar no universo desse disco e o escutei sem parar durante dias a fio. Todas as vezes que apertava o play e emergia nas musicas, tinha a mesma sensação: a de estar enxergando os fatos narrados ali.

A primeira faixa já parece se dividir em quadros: “Cores & Valores”, “Somos o Que Somos”, “Cores & Valores – Preto e Amarelo” e “Trilha” parecem diferentes cenas de um mesmo capítulo, que volta à tona em “Cores & Valores – Finado Neguim”.

Mano Brown inicia o disco com linhas que falam de uma “conspiração funk” que vai do Queens ao Capão redondo, e parece ligar os pontos pelo swing da música e a resistência cultural. O ponta pé inicial do disco atenta ainda para a megalópole São Paulo como um antro de oportunidades, boas e ruins, onde o ouvinte decide qual caminho seguir.

Ice Blue, que por sua vez costumava aparecer esporadicamente em discos anteriores, nesse novo trabalho, aparece sozinho já na segunda track, falando dos pesares e responsabilidades que o dinheiro (ou a falta dele) trazem. A letra nos remete a tentativa em si, de algum dos personagens desse nosso filme, de ir atrás dos ‘valores’ que o interessam, fazendo um comparativo entre algumas cores e os valores a que elas nos remetem.

Na sequência, em “Cores & Valores – Preto e Amarelo”, Negreta soa como uma ligação de um amigo que vem lembrar o valor do trabalho duro e determinação do cidadão comum atrás de seu objetivo. “Pessoa determinada, demonstrando o valor”, assim finaliza sua participação rápida e sólida, com uma ideia quente.

Brown volta em “Eu Te Disse”, e neste capítulo narra o que parece ser a história de um ‘talarico’ (aquele(a) que insiste em dar em cima do cônjuge alheio), e o que o destino reserva para o mesmo, nas quebradas mundo a fora.

Pra quem estava sentindo falta da ‘Voz forte da norte’, Edi Rock chega certeiro em “Preto Zica” falando sobre conselhos e ideias trocadas pelas esquinas, onde o companheiro de grupo canta no refrão sobre um truta que aparentemente costuma aconselhar os iguais, ou os mais novos.

Em “Finado Neguim”, Mano Brown se apresenta afiado, falando sobre o motivo da escolha das cores laranja e preto da marca Fundão (que costuma usar nos shows), em homenagem a um amigo falecido. Na sequência, praticamente destrincha o que seria um plano de assalto, citando coordenadas da ação e detalhes bélicos, numeração de armas, quantias em dinheiro e ainda sobra tempo pra chamar a atenção para a organização e olho vivo nos negócios, tudo isso com uma levada que costumamos chamar de cabulosa, de tão boa.

“Eu Compro” vem em seguida, mostrando uma cara mais atual do grupo, com Helião (RZO) e Ice Blue rimando sobre a famigerada ostentação numa batida pesada, porém com um discurso diferente, destacando também a necessidade de se adquirir cultura e conhecimento, além das coisas materiais. Na minha visão, a música aborda o tema, ligando o consumo a autoestima, com um gosto de “se eles podem, nós também podemos, e devemos”. O que também serve de metáfora pra quando o objeto almejado é um sonho a ser realizado.

racionais

O próximo capítulo traz um hat trick (termo usado no futebol, quando um atacante marca 3 gols na mesma partida) de Edi Rock: “A Escolha Que Eu Fiz”, que narra a história de um jovem que escolheu seguir o caminho mais curto para alcançar seus objetivos financeiros e acabou sendo pego, correndo risco de nem sobreviver pra ser preso.

“A Praça”, lembra o fatídico dia do show que fizeram na praça da Sé,  São Paulo, que acabou resultando num confronto pra lá de controverso entre público e policiais que cercavam o local, e no dia seguinte a notícia estava estampada em todos os jornais, canais de TV e emissoras de rádio, como podemos perceber na intro da música.

Por fim, “O Mal e o Bem”, que se torna uma aula de história sobre sua carreira e o início do grupo que se tornaria um dos mais importantes conjuntos musicais do Brasil, completando em 2014, 25 anos de existência. A música ainda faz um paralelo entre os prós e contras de se viver de música e seu universo.

Brown volta pra cobrar aquela velha dívida em “Você Me Deve” e dá continuação a aula de história em “Quanto Vale o Show”, primeiro single oficial do álbum a ganhar as ruas e redes, dessa vez abordando sua adolescência e a evolução ao seu redor, antes mesmo de se tornar o Mano Brown que conhecemos. De Djavan a Kurtis Blow, artistas e marcas famosas são usados como metáfora para desenhar a mudança do mundo entre os anos de 83 e 87.

Até então, o filme teve ação, consciência, assaltos, conselhos e enfim chegamos a um capítulo um tanto quanto surpreendente para os fãs mais antigos dos Racionais, o romance.

A cada disco, o grupo parece se renovar musicalmente  e dessa vez não foi diferente. “Coração Barrabaz” fala sobre a dor de um homem abandonado por sua amada, tentando encontrar os motivos para tal fato. Com voz destorcida e uma batida lenta, a faixa soa como a própria consciência rimando, em busco de motivos.

“Eu Te Proponho” chega pra ser um final feliz pra essa trama, onde Brown rima sobre levar sua garota para o seu próprio mundo, mostrando que o amor é parte da vida de todos nós. Porém sem deixar o espírito e o peso gangsta de sempre para trás, a faixa tem uma pitada de Bonnie e Clyde. Brown descreve um casal que vive sob suas próprias leis, e no final abrem fuga pra um longínquo e aconchegante novo lar, com a certeza no peito de que dias melhores virão, como disse 2Pac, ou de que “amanhã tudo vai mudar” como diz o trecho do som de Cassiano que é a última ‘cena’ do disco, encerrando assim um grande filme.

Com 15 faixas, há quem ache o álbum curto, há quem ache na medida. Eu acho ótimo! Arte é isso, a democracia de opiniões. Poucos álbuns de hoje em dia soam como álbuns, imagine os que soam como filmes! Esses são raríssimos.

Ouça e tire suas conclusões.

Cores & Valores, já em cartaz!

Fui!

 

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