Um tal de Martim

O ano novo chegou, e com ele, os macetes para garantir que o próximo ano seja abençoado e unico. Pulou suas sete ondas? Comeu lentilha num calçadão? Jurou que finalmente vai largar aquele emprego e viajar por aí? Viveu um dia de comercial de Vanish com uma roupa branquinha que você ou comprou para usar só uma vez e nunca mais ou é aquela velha regata de domingo? Se não, tudo bem também, haverá o ano que vem. Ou com sorte, passa uma estrela cadente por entre os fogos de artifício e te dá uma guinada na vida.

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Nesse ano em especial eu resolvi seguir uma sugestão. Eu, rapaz de vinte e poucos anos, sorriso maroto e muitos amigos, ia passar a virada dando nota no netflix. Meus pais iam viajar cada um para um lado, e meus amigos, pasmem, nas Europas da vida com seus respectivos pares, e me deixar aqui com um engradado de Skol e uma gata para limpar a caixa de areia. Que solidão.

Meu primo veio e disse “Junte R$700,00 e vamos para Martim de Sá”. Ok, fiz uns bicos, resgatei velhas economias e cortei algumas despesas do dia a dia. Acampar numa praia, o que poderia dar errado? Nada, e de fato, não deu mesmo. Fui até o Rio de Janeiro, e de lá, fomos baldeando até Paraty durante a madrugada.

De lá pegamos um barco numa vigem de três horas. Eu saí mais molhado que o Nemo, mas isso já é uma frescura pessoal. Fomos até a praia do Pouso, por ser mais barato e também para pegar a trilha até Martim. Meu chapa, já fez uma trilha com peso? É maravilhoso, tirando a vontade de morrer logo. Chegamos em Martim quando já havia escurecido. Montamos a barraca no camping, jantamos por lá e fomos dormir na praia. Não vi muita graça no começo. Tudo escuro, e só dava para ouvir o mar. Quando eu acordei, e vi tamanha imensidão azul cristalina, cercada por uma floresta que, parecendo ter sido feita a dedo, quase não me aguentei. Corri para o mar, e o mar para mim. Último caldo do ano.
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Martim de Sá é uma praia em que quase não se compreende o conceito do tempo e do dinheiro. Nos sete dias que passei antes da virada, percebi como pessoas mudam quando colocam os pés naquela areia. Tamanhos carisma, gentileza e beleza pelo interior te fazem amar estar lá, e te fazem amar fazer parte disso.

Como paulistano, acho que é natural que eu tenha o senso frenético de saber que horas são. Mas isso fica irrisório quando você entende que não importa, não tem compromisso mesmo. Lá sempre é meio dia para as quatro quando tem luz do sol, e quando cai a noite, é a mesma hora de ontem. Não tem sinal de celular, não tem 3G, e se você quiser muito se comunicar com o mundo lá fora, tem que pegar uma trilha de quase 30 minutos de subida. Tô suave.

Nada de tradições sem sentido de fim de ano, lá você vive o momento. Não há ansiedade pelo que virá, e mal existe nostalgia do que já foi. Se um dia você quiser se conhecer melhor, viaje, não tem erro. E se você quer conhecer um paraíso na terra, vá para Martim de Sá. Só tente ter respeito por esta terra, por aqueles que te rodeiam, e por si mesmo. Isso é algo que Martim me ensinou, e é algo que você começa a fazer em qualquer lugar.

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Um paraíso que tem como guardiões o grande Seu Maneco e família, que ali estão há 5 gerações. Homem de idade avançada cujo tempo recebe com outras medidas. Pés descalços e vasta sabedoria. Mais sabido que muito engravatado da capital, deitado em sua rede azul de frente para o mar e que sempre esta livre para contar um pouco mais sobre a história que nos rodeia lá, a cultura caiçara, e a tristeza sobre como o mundo se afoga em ganância. Em Martim não. Obrigado, Seu Maneco.

Foram 16 dias que me fizeram até esquecer um pouco da vida na velha babilônia. É um daqueles lugares que mudam sua perspectiva sobre os problemas do dia a dia. Tira um peso das suas costas maior do que qualquer mala de viagem numa trilha, confesso. Você conta estrelas cadentes, deixa de desejar tanto, e passa a agradecer.

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