O Desaparecimento de Eleanor Rigby

poster_rigbyToda história tem dois lados. Em se tratando de relacionamentos, cada pessoa tem uma percepção diferente dos fatos, motivações e escolhas – o que faz com que muitas vezes haja um conflito entre os envolvidos. Não seria difícil, portanto, entender o por que de casamentos, namoros e relações familiares serem carregadas de discordância, dualidade e versões parciais. Ned Benson, diretor estreante, optou por contar sua história de amor levando em consideração o poder da percepção.

O Desaparecimento de Eleanor Rigby é um filme deveras simples, dividido em duas partes: Ele e Ela. O drama tem ao todo 3 horas de duração, cada metade uma perfeita análise dos mesmos fatos, feita pelos dois protagonistas, Conor Ludlow (James McAvoy) e Eleanor Rigby (Jessica Chastain). Não existe uma ordem certa para assistir ao filme, mas começar pela história de Conor dá uma outra dimensão aos mistérios da obra, que são elucidados na metade de Eleanor (pela ótica dela, o que ajuda a justificar para o espectador todas as ações da personagem, sem deixar a sensação de que temos apenas “verdades” ditas por Conor).

O filme começa com um flashback do casal em um de seus momentos mais doces, quando eles fogem de um restaurante para não pagar a conta. Após correrem pelo parque ao anoitecer, debruçam-se na grama do jardim onde vagalumes brilham sem sincronia, uma ótima metáfora para o próprio relacionamento deles: uma luz, tinindo, oscilando de intensidade na escuridão que a tripudia aos poucos. À partir dessa cena terna e romântica (até mesmo idealizada), começa a versão pessoal de cada um para os anos que sucederam aquela noite: o auge do relacionamento, o noivado, o casamento e a separação. É interessante como Ned Benson fez questão de não filmar dois passados, o que deixa claro que esse legado é a única concessão do casal – os dias em que a felicidade era sentida e não teorizada.

Ele

Conor é um homem comum, dono de um restaurante endividado cujo cozinheiro é seu melhor amigo Stuart (Bill Hader). Carrega constantemente o semblante abatido e um olhar ausente, reflexos de quem sofreu uma grande perda recente. Não por acaso, McAvoy conseguiu retratar com firmeza essa dor por meio de uma atuação que passeia por frustração e raiva. Não são poucas as situações em que Conor é facilmente irritado por qualquer motivo que seja. Eleanor o abandonou.

Ned Benson costura as cenas com sabedoria, encaixando as imagens de forma que o espectador sente o efeito do desaparecimento de Eleanor, mas não sabe a causa. O protagonista volta a morar com o pai (Ciarán Hinds) do qual mantém uma distância emocional, apesar de mostrar respeito. Trocam poucas palavras quando precisam, possuem ideias divergentes mas nutrem um carinho silencioso – o que pode ser uma consequência da postura durona do pai, visto que Conor sempre tenta encontrar um ponto comum entre os dois nos diálogos bem tecidos do diretor.

Não se sabe ao certo, mas tudo aponta para a tese de que Eleanor desencadeou todo esse abissal na vida do protagonista. Junto com o término veio o desânimo, as dívidas e a desorientação, os quais ele não consegue esboçar uma reação para enfrenta-los. Acredita, contudo, que a manutenção de sua vida profissional, amorosa e familiar vai se resolver quando recuperar Eleanor. No caso, encontra-la.

Da parte técnica, Ned Benson utiliza uma montagem arrastada nas cenas de Conor e deixa o som ambiente fustigar o espectador. A poluição sonora do restaurante, o tilintar da chuva, o ronco do trânsito, os ruídos da rua… tudo é sentido para demonstrar a profunda irritação do protagonista com o ambiente que o cerca. Um lugar outrora acolhedor, mas que tornou-se um terreno hostil. O diretor ainda utiliza uma paleta de cores fria (muitas vezes o azul e o ocre pincelam a tela) para afigurar a penumbra emocional de Conor.

Ela

Eleanor, por outro lado, está inserida num núcleo mais colorido e acolhedor do que Conor. Sua família, a simpática irmã Alexis (Jess Weixler), o pai Julian (William Hurt) e a mãe francesa Mary (Isabelle Huppert), não faz perguntas sobre o término e tenta dar, o tempo todo, aconchego para Eleanor – uma estratégia que peca pelo excesso. Visivelmente consternada, cansada e desorientada, ela divide o tempo entre dormir (um reflexo da depressão) e a tentativa de retomar a vida acadêmica, ao iniciar aulas com a professora Lillian Friedman (Viola Davis, conhecida por seu papel marcante em Histórias Cruzadas). A professora e ex-colega de trabalho do pai de Eleanor, exprime sua insatisfação sobre a vida por meio de comentários mordazes e irônicos, os quais ajudam a criar um laço maternal com a protagonista, que também compartilha uma mágoa turva. Não se sabe o que aconteceu entre ela e Conor.

Jessica Chastain constrói uma protagonista autista, de pouca fala e temperamental, fugindo da sua habitual paixão por personagens femininos de forte personalidade (como fez em A Árvore da Vida, A Hora Mais Escura e O Ano Mais Violento). Alheia aos demais, principalmente Conor, Eleanor está sempre em contemplação, lesada pelas circunstâncias que circulam seu passado recente. Esses pensamentos, ora flashbacks dos seus anos dourados com Conor, ora fixados na sua vida sem ele, demonstram o quanto é a dualidade pesada pela protagonista – que não agrada a maioria dos espectadores por sua constante falta de direção e coerência. Eleanor é autista nesse sentido: de viver sem medir as consequências de suas ações, manter um ar ausente e iludido, ou ainda rejeitar pessoas que só querem ajuda-la em sua perdição.

Não satisfeita com a sua realidade, Conor continua sendo seu único porto-seguro, o verdadeiro, o amigo que sente e reconhece sua tristeza. Porém, ao contrário do marido – que procurou seguir adiante, enfrentando o cotidiano e as mazelas do dia-a-dia – Eleanor escolheu a reclusão. O filme silencia e dá espaço para a belíssima trilha sonora de Son Lux, que casa de forma sublime com as imagens douradas que percorrem a película. A ambiguidade de sua dúvida em voltar para o marido ou mantê-lo longe está intrinsicamente ligada ao que ocorreu entre eles antes de toda a crise se instalar sobre ambos. Ned Benson foi inteligente ao perceber que não poderia colocar todo o peso do término no colo de Eleanor, ou de Conor, como ocorre indiretamente em outros filmes; e assistir ao filme Ela depois do Ele ajuda para entendermos o seu sofrimento sem condená-la por isso.

Eles

O desaparecimento acabou por separá-los emocionalmente e, paradoxalmente, por uni-los na sua desorientação. Nenhum deles tem uma carreira profissional brilhante ou promissora, o bloqueio sensitivo ergue-se de maneira abrupta impedindo-os de sair do limbo que se tornou suas vidas e, por último, a impotência de seus familiares em ajuda-los. Nota-se que o desaparecimento que dá título ao filme não é restrito apenas a Eleanor, mas também a Conor, e a história de ambos. De fato, apesar de ter um enredo pouco complexo, o filme em análise alicerça-se na exposição de numerosas cenas intensas e impactantes. A carga dramática da película é decorrente do tema e da competência de seus atores que aproveitaram a liberdade disposta por Benson para tirar interpretações que cativam pelo sentimentalismo honesto.

É importante ressaltar a grande escalação do roteiro, que uniu estrelas antigas como William Hurt, Viola Davis e Ciarán Hinds para papéis de suporte, com atores em ascensão (Chastain e McAvoy) para os holofotes do filme. Por sinal, a química do casal em cena é peculiar e extremamente autêntica. Ned Benson aproveitou os olhos expressivos de ambos para registrar a reação de sentimentos por meio de seus close-ups, deixando o filme todo mais intimista. Outro traço marcante que Benson incutiu no filme é o desfecho poético, coerente com o andar da obra e fundamental para nos fascinar (para isso, é preciso assistir às duas películas).

Embora tivesse em mãos um argumento pouco rico, é evidente que o diretor não teve problemas em provocar emoções na sua audiência. Se muito do sucesso que o filme atingiu se deve ao fato do seu curioso formato fragmentado e a maestria das interpretações que reside na sua história, isso não interfere no poder de sua obra em impactar. E, em alguns casos, até fascinar.

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