O Jogo da Imitação

theimitationgameposterGênio matemático e colaborador da força militar inglesa durante a Segunda Grande Guerra, Alan Turing ajudou indiretamente a poupar inúmeras vidas inocentes, decifrando o código que venceu a máquina criptográfica alemã, Enigma. Historiadores estimam que a interceptação das mensagens nazistas foi fundamental para ajudar os aliados nas principais vitórias, além de ter antecipado em 2 anos o fim da guerra. Sob total sigilo inglês, o sucesso de Alan Turing e sua equipe de criptógrafos permaneceu em silêncio por mais de meio século, até entrar oficialmente na história, em 2000.

O triunfo de Alan aponta uma tendência levantada por Simon Singh em seu Livro dos Códigos (2010, Editora Record), cuja análise se faz da evolução das armas de guerra ao longo dos anos: a primeira guerra mundial foi dos químicos (gás lacrimogênio, gás mostarda), enquanto a segunda se baseou nos esforços dos físicos (panzers, bomba atômica). Simon acredita que a terceira guerra será dos matemáticos, sendo a informação o bem mais valioso para as nações; aquilo que será defendido e atacado, para o bem e para o mal. Isso, no caso, já aconteceu no passado, e esse vazamento das informações estratégicas dos nazistas custou a guerra à Alemanha.

O Jogo da Imitação é um belo filme dirigido por Morten Tyldum, com roteiro adaptado por Graham Moore, baseado no livro Alan Turing: Enigma, de Andrew Hodges. O problema da obra é não usufruir de toda a riqueza presente na biografia de Turing, deixando de lado questões fundamentais de sua formação como adulto e até mesmo o processo de descodificação do Enigma. Ao assistirmos ao filme, o protagonista pergunta ao entrevistador e por consequência ao espectador: “Você está prestando atenção? Está atento? Tudo o que eu lhe disser não será repetido”. O que, ironicamente, não precisa ser repetido pois não há opulência de detalhes acerca da vitória de Turing.

Essa ausência de reviravoltas empalidece a experiência do público, configurando o filme num eterno check-in e check out. Morten Tyldum fragmenta a narrativa em 3 tempos (1923, 1939 e por último 1951, após a Guerra), juntando-os de forma a colocar aos poucos as peças do quebra-cabeça em seu devido lugar. A figura que se forma, obviamente, é de Alan, um personagem por sua vez enigmático, astuto e indelicado, vivido com respeito e grandeza de Benedict Cumberbatch. Logo não se demora a entender que, assim como O Discurso do Rei (2010), a película de Tyldum vive na sombra da grande atuação de Cumberbatch, que revive uma pessoa importante, porém esquecida pela história.

Se no passado Colin Firth demonstrava o sofrimento de seu personagem enquanto este moldava-se as requisitos do trono inglês, no Jogo da Imitação, Benedict internaliza as aflições de Turing, a “deficiência” social, a obsessão pelo conhecimento e, por último, sua homossexualidade. A opção de Turing foi o grande motivo pelo qual seu nome ficou de fora da história inglesa, pois era um ato que enquadrava-se como “obscenidade”; um crime passível de tratamento hormonal e até prisão. Com entrega apaixonada, Cumberbatch consegue balancear o distanciamento de Turing com lampejos de sensibilidade, quando demonstra que seu personagem não é totalmente manco em compreender as sutilezas das figuras de linguagem, em especial a ironia.

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Entretanto, mesmo com o talento de Cumberbatch, a menção expressa à sexualidade de Turing é o que mais sabota o filme, sobretudo por ser, até certo instante, uma decisão contraproducente, expondo os defeitos de uma narrativa indecisa entre mostrar a descoberta do código do Enigma ou expor as questões existenciais e pessoais do seu protagonista. Sem êxito total em ambas as propostas, Tyldum ainda oferece mais um dilema moral interessante: o sigilo do sucesso da equipe quando esta decifra a máquina, a fim de não fazer os nazistas cientes de que seus planos estavam comprometidos. As duras decisões tomadas por meio de estatísticas, como por exemplo, quais batalhas vencer, quais perder, quantos soldados enviar, quantos perder… é um novo panorama de enxergar a guerra através de uma vantagem invisível.

A montagem de William Goldenberg oferece planos interessantes e passagens inteligentes, como quando contrasta a tranquilidade vivida pelos criptógrafos em Parque Bletchley com imagens históricas dos confrontos. O giro das engrenagens e dos botões da máquina Christopher de Alan sempre vem ao som de uma marcha de soldados, lembrando a organização dos nazistas durante os discursos do seu Führer, assim como planos fechados de cigarros e lápis são associados a imagens de torpedos, fumaça e explosões. A trilha de Alexandre Desplat é outro ponto positivo da película, com leves passagens de piano quando há flashbacks e flashfowards, mas que se interrompe para Tyldum trabalhar o seu mise-en-scène.

Não há muito o que se comentar das demais atuações. Mark Strong, Charles Dance, Alan Leech e Rory Kinnear fazem a sua parte com competência, mas sem se arriscar. Keira Knightley tem participação maior na trama, mas sua Joan Clarke dá a sensação de ser apenas a cota feminina do filme, sempre com discursos feministas pré-fabricados. É uma pena ver uma personagem interessante como Joan renegada ao papel de desbancar preconceitos machistas – por pura conveniência do roteiro – ao invés de oferecer honestidade para com a história.

Com produção 100% britânica, o diretor Morten Tyldum rodou as principais cenas no Parque Bletchley, na Sherborne School (escola onde Alan estudou) em Dorset e em Londres. O Jogo da Imitação resume-se a uma cinebiografia segura de um gênio importante, considerado o pai da informática moderna, mas que pouco se arrisca em seu desenvolvimento. É o tipo de filme que os analistas do Oscar adoram: biográfico, baseado em fatos reais e histórico. Alan Turing foi lembrando, em 2013, quando recebeu o perdão real da Rainha Elizabeth II, por seus atos de “obscenidade”. Resta saber se os demais condenados entre 1885 e 1967 também serão perdoados pelos seus crimes infundados.

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