Birdman (ou a inesperada virtude da ignorância)

birdman_poster“A grande literatura tem que permanecer conectada a vida, enfatizando-a e transformando-a” – Raymond Carver.


Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância) é um filme como poucos, daqueles que aparecem nos circuitos uma vez a cada dez anos. A obra de Alejandro González Iñárritu defronta e escancara as atrocidades que os produtores fazem em Hollywood e questiona tudo o que há de errado hoje com a indústria – tanto nos bastidores quanto na audiência. Mais do que um metafilme, a película também possuí personalidade própria: critica e satiriza, sem deixar de contar uma história original e profunda de ego, autoestima e carreira.

E faz isso brilhantemente por meio de um ator veterano, Riggan Thomson (Michael Keaton), que busca uma maneira de superar seu passado “glorioso” no cinemão americano, quando interpretou Birdman em uma trilogia bilionária. Thomson se consagrou como um super-herói, assim como Keaton em Batman (1989), e afundou sua carreira em papéis esquecíveis nos anos seguintes ao que abandonou a máscara e capa. Como recomeço, Thomson tenta sua sorte no teatro St. James de Nova York, escrevendo, dirigindo e estrelando uma peça que visa o prestígio intelectual, com base nos escritos do autor Raymond Carver.

Iñárritu troca a calmaria de 21 Gramas e Biutiful pela frenesi de Birdman e seu longo plano sequência, como fez Hitchcock em Festim Diabólico (1948). Há quem desmereça a falsa produção contínua, por conta dos cortes invisíveis em momentos oportunos na edição (quando a câmera adentra um ambiente escuro ou passa por uma parede de forma apressada), mas isso não tira o brilho e o clima da urgência vivida nos bastidores da peça de Thomson.

Junto do diretor estão as atrizes Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), sua assistente e filha, Sam (Emma Stone) – cuja relação com o pai é tudo menos tranquila – seu produtor executivo Jake (Zach Galifianakis) e, por último, o ator-sensação Mike Shiner (Edward Norton).

Lesley é uma atriz de teatro que vive o sonho da Broadway, ainda que este se revele um pesadelo conforme o trem sai dos trilhos. Laura, a outra atriz, possui um caso com Riggan, mesmo que para ele essa relação claramente não passe de sexo e alívio ao seu delírio diário. Sam, uma viciada recém saída da Reabilitação, está em conflito constante com seu pai, cuja ausência na infância e na adolescência culminaram em seus vícios, segundo ela. Para se aproximar, Riggan convidou-a para trabalhar como assistente dele em sua peça, papel que ela desgosta e que a faz enojar-se ainda mais de seu pai.

Mike Shiner, por conta de sua complexidade, merece menção especial. Ele é o estereótipo do ator clássico: sua participação no palco deve ser vivida e não interpretada (como na cena em que troca a água da cozinha por rum de verdade, apenas para embebedar-se). Edward Norton aborda esse ator com convicção, criando um personagem de temperatura emocional elevada, cujo sarcasmo não deixa escapar nenhum detalhe. Suas piadas beiram ao desrespeito e são dirigidas a todos ao seu redor, até mesmo Riggan, que constantemente precisa domá-lo. Ciente de sua qualidade, sua postura incomoda o diretor, que vive inseguro da peça que está conduzindo.

E por falar em Riggan Thomson, a estatueta do Oscar de melhor ator nunca esteve tão próxima de Michael Keaton. Franco em sua derrocada, gordo, velho, esquecido e de semblante abatido, o personagem ainda tem de lutar contra a voz interior, um alter ego que se formou em seus tempos de Birdman. Essa personalidade faz alusão ao Batman, pela voz rouca e presente, sempre abalando os pensamentos de Riggan, debochando-o e provocando-o.

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A forma intimista como Iñárritu filma nos ajuda a adentrar essa loucura, como fez Aronofsky em O Lutador (2008); ele despe seu protagonista, expondo-o ao delírio e ao questionamento de suas ambições como artista. Ao mesmo tempo, escolhe o gênero super-saturado de heróis no cinema (perdoe o trocadilho), para estripa-lo, disseca-lo e jorrar seu interior inócuo e raso. Iñárritu, assim, quer provar que a grande veia lucrativa de Hollywood hoje tornou-se uma saída clichê dos produtores, uma prisão criativa responsável pela falta de imaginação em gerar histórias originais.

A batalha de ego de Riggan ainda esbarra na imprensa e nos críticos. Essa parte do filme gerou uma grande discussão acerca do que essas pessoas influenciam e representam hoje: personagens que colocam ferozmente produções em fogueiras para que o público apedreje seus criadores sem dó, ou especialistas intelectuais responsáveis por alavancar obras ao grande hall do prestígio e sucesso. Há uma personagem alegórica – Thabita, a crítica de teatro do jornal The New York Times – cujo confronto com Riggan é inevitável e previsível.

Iñárritu coloca à tapa sua visão de imprensa e crítica ao ridicularizar Thabita, mostrando ao público que a crítica megera se serve de rótulos e fórmulas prontas para comentar as obras dos artistas. “Sabe por que você rotula? Porque é fácil. A vida de vocês é leviana e fácil. Vocês não arriscam nada aqui. Eu estou arriscando tudo ali”. Para o diretor (e Riggan), não é direito do crítico o papel de juiz da arte e como argumento desse ponto de vista entra até texto de Roland Barthes.

Birdman, o alter ego de Riggan, faz o contrapeso desse ódio ao crítico. Para ele, as pessoas não querem pensar. Não querem nada que não seja ação, explosão, morte, sangue e riso. Talvez a crítica seja um reflexo disso. Falta coragem para que alguém quebre esse paradigma e diga “não”. Somado a esse discurso corajoso e sarcástico está uma trilha sonora pontuada pela percussão e bateria, sem instrumentos de cordas ou sopro. O resultado final é mais do que atrativo.

Birdman (ou a inesperada virtude da ignorância) é uma amálgama de estilos, essências, substâncias e linguagens, onde diretor, argumento e história colidem o tempo todo para desconstruir os bastidores da indústria de cinema. É o ensaio dos ensaios, o filme dos filmes de hoje – e forte candidato ao Oscar 2015. Mesmo se não ganhar, Hollywood não se esquecerá do esforço nada gratuito de Alejandro Iñárritu em transmitir em sua meta-obra algo a mais do que os clichês que movimentam o presente dos criativos. Se falta sangue no pulso dos artistas hoje, Iñárritu ao menos demonstrou-os com estilo.

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