A Teoria de Tudo

teoria_posterA cinebiografia do astrofísico e cosmólogo Stephen Hawking, entre outras definições, desponta pela beleza de seu conteúdo. Afastando-se dos clichês de melodrama e biografias enfeitadas, a película se apresenta como documentário (ainda que haja ficção), aproveitando o texto e o ponto de vista de Jane Wilde Hawking, primeira esposa de Stephen.

Por esse lado, o filme do diretor James Marsh, notado pelo seu documentário vencedor do Oscar, O Equilibrista (2008), pode desagradar quem entrar na sala do cinema na espera de encontrar respostas técnicas do físico às questões como o tempo, a origem do Universo e a existência de um Deus. Diferente de Interestelar, cujos conceitos e mensagens são martelados na mente do espectador a cada cinco minutos de projeção, ainda que deixando em evidência o testemunho do ser humano e toda a devastação emocional disso, A Teoria de Tudo é um filme de relacionamento. Um romantismo nada cômico, mas gravado de forma singela e segura por James Marsh.

Por conta de sua força emocional como história é que se percebe o potencial da obra como produto do cinema dramático: o amor de Jane, assim como o ímpeto de Stephen em transgredir as barreiras do desconhecido, é incondicional. O filme retrata com perfeição essa entrega, mesmo sendo apresentado no formato “menino encontra menina” que tanto saturou as histórias românticas. Aqui, por conta da aceleração dos eventos que marcaram a vida dos Hawking (o uso de imagens granuladas remete a documentos históricos) o filme adere a esse tom de documentário, deixando de lado os rascunhos e avanços do astrofísico no ramo que o consagrou.

É como se fossemos leigos como Jane, que desconhece a explicação técnica e filosófica por trás das teorias de Stephen, apesar de apoia-lo em seus estudos. A compreensão pouco importa se o que está em foco é o relacionamento de ambos; e não dificulta a nossa aproximação com sua personagem, vivida por uma Felicity Jones confortável no papel. Ela, que recebeu dicas da própria Jane Wilde em sua trajetória para recriar a ex-mulher de Stephen, conseguiu transpor para a tela a segurança e autoridade de Jane – características fundamentais no enfrentamento da doença. Mesmo interpretando uma jovem meiga e delicada, a disposição de sua personagem a fortalece. Em nenhum momento Hawking se sente abandonado ou desgostoso com o que lhe foi destinado.

Eddie Redmayde, o outro protagonista, faz toda a diferença no filme. É sua atuação, impressionante e ímpar, o motivo da obra de James Marsh ganhar tanta força nessa aproximação dos grandes prêmios do cinema (BAFTA, Oscar, Globo de Ouro e no SAG Awards). Envolto pelo contexto triste da doença (a esclerose lateral amiotrófica, conhecida como ELA, na sigla em inglês), o rapaz não deixa de usar seu humor em situações trágicas, criando um alívio cômico dentro do filme. Eddie foi além em sua incorporação: além de conversar com o astrofísico em pessoa, dedicou-se aos livros que ele escreveu, as suas teorias e até mesmo fez visitas a uma clínica onde pacientes de ELA se tratam. Em entrevista a revista Galileu, ele disse:

Foi muito intenso. Trabalhei seis meses com o coreógrafo Alex Reynolds. Além das visitas à clínica, utilizei fotos de Stephen e outros registros para saber como teria sido o declínio físico dele especificamente. Por exemplo, há uma foto dele apoiado em uma bengala em seu casamento, e mesmo que pareça que ele está segurando a mão de sua esposa, você pode notar sutilmente que ela é quem o está sustentando. Essa foi uma das muitas pistas sobre qual era o estágio físico dele naquele momento.

Stephen não é um homem fraco que se faz de vítima das circunstâncias. James Marsh mostra que o cientista transgrediu todas as limitações impostas pela doença, tanto mental quanto fisicamente. A sua condição não o impediu de revolucionar a astrofísica, a ciência e o próprio tempo (até hoje médicos não sabem dizer o quê o mantém vivo, devido ao poder de destruição da esclerose amiotrófica). Também não o impediu de saber desfrutar dos seus momentos felizes ao lado da família ou quando recebe o reconhecimento dos demais profissionais de sua área. Stephen, nesse sentido, é um exemplo do poder do espírito humano – de amar, de viver, de não ceder ao desespero ou a fraqueza.

E chega o momento em que sua relação com Jane entra em colapso: suas necessidades enquanto esposa, seu desemparo enquanto mãe. A impossibilidade de não ter o marido que sempre esteve ali, mas que nunca mais poderia lhe dar aquilo que aproveitou quando ambos eram mais novos. Esse Stephen jovem, porém imaturamente genial, conservava-se apenas em sua memória. Podemos sentir a angústia de Hawking em não poder ajuda-la nas coisas mais simples e banais do cotidiano: falar, subir uma escada, alimentar-se ou levantar e pegar uma caneta que caiu da mesa.

A Teoria de Tudo não é um filme isento de erros e melhorias, ainda que seja competente em emocionar e angustiar. Seus problemas são semelhantes aos de outra biografia que concorre a estatueta de melhor filme, O Jogo da Imitação: um filme em formato convencional, de direção segura, operado no lugar-comum e que pouco se arrisca. Não oferece, em termos técnicos, motivos para estar figurando entre os outros candidatos a melhor obra de 2014, ainda que conte uma história envolvente de amor e superação. Sua beleza, inquestionável, é a mensagem oferecida após o fim da sessão.

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