50 Tons de Censura

50shades_cover Adaptação do primeiro volume da trilogia erótica de E. L. James, best-seller com 100 milhões de cópias vendidas ao redor do globo, 50 Tons de Cinza é uma história de romance entre o jovem milionário Christian Grey e a estudante de literatura inglesa, Anastasia Steele. Polêmico, controverso e irrisório, o texto que começou como fan-fic da enfadonha saga Crepúsculo ganhou grande assédio por parte das leitoras, tornando-se um livro publicado como e-book e impresso sob-demanda, sendo comprado pela Vintage Books poucos meses após seu lançamento, o que lhe deu repercussão em escala mundial.

Do ponto de vista técnico, a aventura erótica de E. L. James não oferece absolutamente nada de novidade, seguindo um amontoado de clichês e ideias retrógadas (que serão comentadas a diante) ao longo de seus três livros. Com tanto sucesso, a adaptação para os cinemas foi inevitável. Da diretora Sam Taylor-Johnson, responsável pela cinebiografia de J. Lennon em Garoto de Liverpool (2009), o filme tem suas ressalvas. É bem conduzido e com bom acabamento visual: fotografia, edição, direção de arte e locações. Precisa-se destacar as qualidades que lhe são atribuídas por direito. Talvez se não fosse pela mão de Sam, teríamos uma adaptação tosca e mal acabada como foi a de Crepúsculo em 2008.

Infelizmente, quando o assunto é analisar o conteúdo, 50 tons desaba por completo. É um livro falho de mulher para mulheres. Sobre erotismo e masoquismo. Dominação e submissão. Um livro opressor, desequilibrado e, assim como seu antagonista, dúbio. Por que, afinal, ele fascina tanto as mulheres e, por extensão, os homens? Uma obra que invoca tanta curiosidade merece, no mínimo, atenção. A escrita de E. L. James aborda um tema que deu pouco as caras no cinema: a sexualidade da mulher e a forma como ela é explorada.

Anastasia é uma protagonista rasa cujas ambições de vida nós desconhecemos. Parece ser uma jovem estudiosa, reservada e comum. Tímida e desastrada, ela se descreve no livro como a personificação da insegurança. Sua “Deusa Interior” está mais para “Bully interior”, pela forma como ela se auto-avalia, de maneira impetuosa e severa. Anastasia é incapaz de enxergar qualquer qualidade ou habilidade em si, a não ser seus defeitos, o que faz com que sua autoestima seja oca. Quando sua melhor amiga, a estudante de jornalismo Katherine Havanagh, consegue marcar um horário para entrevistar Christian Grey, o destino age a favor de Anastasia. Kate adoece e ela, à pedidos da jornalista, fica encarregada de realizar a entrevista.

E. L. James monta, a partir daí, sua conexão entre os personagens principais da história, de forma a desbravar os mistérios de Anastasia por meio de Christian, seu “cavaleiro de armadura reluzente”, entre outras comparações sofríveis. Não demora muito para a diretora colocar as poucas peças do livro no seu tabuleiro, e logo percebemos que Christian (Jamie Dornan) não é um homem comum. Separado do sucesso existem fetiches, sombras que ele necessita combater através de suas perversões. Entre sua habitual exerção de controle e sadismo, ele nutre um sentimento honesto por Anastasia. Mas, como é um homem dominador, ele não pode ceder o controle à ela, e ser por sua vez o submisso.

Diferente do livro, o Sr. Grey de Sam Taylor-Johnson regozija os olhos por sua educação e carisma. Ficam de lado a sedução (que quando ocorre é involuntariamente cômica) e a possessão light, digna de títulos da sessão da tarde. O resultado é um personagem dominador, traumatizado por circunstâncias incoerentes, obcecado por uma mulher insegura e, sem dúvidas, um bacaca. Jamie Dornan é esforçado ao trazer uma abordagem que mescla suspense, presença e tensão para seu Christian. Dakota Johnson (Anastasia) também constrói uma personagem de acordo com o texto original, mordendo os lábios constantemente, evitando contato visual com outras pessoas e com a voz sempre fraquejando ao falar. Aos poucos, ela se sente mais a vontade conforme o relacionamento com Christian evolui.

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Ao introduzir o sexo entre os amantes, o filme enrubesce. A câmera restrita à close-ups, travellings lerdos e cortes românticos não transpõe a malícia explícita que há nos livros. Por exemplo, o sexo oral que Ana faz em Grey, censurado na película por questões morais. Os brinquedos sexuais, como o butt-plug, sequer aparecem. Nós vemos os utensílios de Christian para imobilizar, amarrar, enforcar e prender suas amantes, mas não temos demonstrações de sua “dominação”. Até mesmo para chicotear Anastasia ele o faz de jeans, sem expor o seu corpo à câmera de Sam Taylor-Johnson. Nesse sentido, 50 Tons de Cinza decepciona sem decência alguma. É um sexo bem enquadrado, mas ensaiado demais. Sem improviso, sem tesão.

Há, em parte, grande culpa de Hollywood, que continua sendo um estado assexuado quando precisa mostrar qualquer coito no cinema. É de se questionar o impulso com que os estúdios produzem filmes de guerra, ou mesmo de qualquer outro assunto que envolva violência, podendo demonstrar agressões à exaustão, sem precisar cortar cenas de alguém estripado ou mesmo esquartejado. Mas, ao envolver sexo, é preciso ser contido, careta, para manter a censura do filme mais frouxa possível, a fim de enquadrá-lo como livre para todas as idades. O sexo não deve ser exposto sem um consentimento entre público e artista. Está cada vez mais raro e, portanto, mais comentado.

Nos anos 70 tivemos Império dos Sentidos, dirigido por Nagisa Oshima, filme que exportou o erotismo de uma forma peculiar e até mesmo incômoda. 9 Semanas e Meia de Amor causou polêmica e foi muito comentado na década de 80. Já nos anos 90 foi a vez de Instinto Selvagem, do mestre holandês Paul Verhoeven, desabrochar o sexo como thriller erótico, longa-metragem icônico por conta da presença de Sharon Stone e Michael Douglas. Azul é a Cor Mais Quente (2013) e Ninfomaníaca (2014) são exemplos mais recentes e que mostram o sexo sem restrição, como parte fundamental da história e do relacionamento dos personagens. 50 Tons, se comparado aos demais, é uma literatura que entrega um erotismo mastigado, leve e de pouca ousadia.

O maior problema da obra, além do erotismo barato, é a personalidade de sua protagonista. Anastasia se entrega a uma submissão metafórica, boçal (no pior sentido da palavra) e ultrapassada, colidindo na contramão com a crescente conscientização do papel da mulher na sociedade. Cada vez mais, as mulheres conquistam o lugar que lhe é direito, diminuindo a hegemonia masculina na arte. O público entende isso e apoia, transpondo barreiras não só sociais como políticas, refletindo, assim, na cinema, o seu merecido destaque. A submissão social dela perante Christian Grey, o seu dono, a quem ela deve prestar satisfação de tudo o que faz na sua vida, até mesmo o modo como ele a trata, são ambos fatores de um retrocesso para as mulheres. Essa ode ao passado machista, em formato erótico, nada tem a acrescentar ao futuro da arte. Mais do que nunca, as obras precisam se atualizar e transcender barreiras ainda inexploradas, e não olhar para trás em busca de um conceito obsoleto.

Ainda que Christian Grey seja um personagem que diverge opiniões (esta matéria explica melhor o por quê), 50 tons segue uma fórmula batida e covarde. Mal escrito na cerne (os livros), a diretora Sam Taylor-Johnson e a roteirista Kelly Marcel são inocentes e livres de qualquer culpa pela bomba que tiveram que armar para lançar nos cinemas. Se alguém precisa ser creditado pela sensação incômoda de retrocesso após o fim do filme, esse alguém é E. L. James.

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